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RUA 13 DE MAIO ‒ SOBROU PRA MIM

De 1550 a 1888, período da escravidão no Brasil Colônia, muitos crimes  de mortes envolvendo o branco predador e o preto presa  aconteceram  nos casarões dos senhores fidalgos. Em São Luís do Maranhão, somente no século XIX, a Rua 13 de Maio (antiga Rua São João) foi palco de vários desses crimes horrendos.  No sobrado número 124 da referida rua, o Desembargador Pontes Visgueiro (um ancião que andava arrastando os pés, surdo e ciumento) matou, esquartejou e enterrou no jardim daquela morada a sua bonita escrava e amante Mariquinha. Em outra casa imponente daquela rua, uma fidalga viúva, de 45 anos, matou por asfixia um escravo de doze anos numa relação sexual alucinante. Em um casarão próximo, a Baronesa de Grajaú ─ uma besta humana ─, que já havia mandado arrancar a torquês os dentes de uma escrava  pelo fato de o Barão ter elogiado o sorriso da moça, matou com requintes inimagináveis de maldade (entre outros, perfurando com garfo as partes íntimas da sua vítima) o escravo Inocêncio, de apenas oito anos. Na esquina da Rua 13 de Maio com a Rua da Paz, no prédio denominado Palácio das Lágrimas (lágrimas de uma escrava), o português Jerônimo Pádua foi assassinado pelo irmão por terem os dois saído de Portugal com intuito de se darem bem em São Luís e só Jerônimo enriqueceu, o outro Pádua  continuou pobre. O assassino fez o crime transparecer como morte natural para se apoderar dos bens do irmão morto e descarregar o seu ódio doentio nos criados, em especial na escrava manceba do finado. Com pouco tempo, tudo veio à tona e um filho de Jerônimo com a dita escrava empurrou o assassino do pai por uma janela do alto daquele sobrado, culminando com a morte deste. Em um estábulo, no final da rua em questão, um senhor de engenho matou no açoite o seu escravo pelo fato de este – que dormia numa  cocheira − não ter acordado na noite em que a esposa daquele senhor fora morta ao tentar relacionar-se com um cavalo reprodutor. Tudo crimes com o mesmo pano de fundo: sexo e racismo!

Já no Século XX, mais precisamente em  16 de junho de 1966, na Rua 13 de Maio, esquina com a Rua do Sol, na Casa das Bicicletas, o português Fernando Arteiro assassinou a marteladas na cabeça o seu sócio e patrício José Melo, numa noite de balanço contábil em que as evidências comprovavam as falcatruas de Arteiro na empresa Melo & Arteiro. Eu conheci os dois, até porque transitei normalmente cinco anos pela trágica Rua 13 de Maio, quando cursei o primário na Escola Modelo Benedito Leite. No meu último dia  de aula naquela escola, após receber o resultado da conclusão do curso primário, eu, com 14 anos de idade, fui paquerado por uma moça negra − sem dúvida mais velha que eu − que me acenou da casa ao lado do sobrado número 124, onde Pontes Visgueiro havia matado Mariquinha. Aquela jovem me viu passando do outro lado da rua e convidou-me para um encontro naquele dia, na casa dela, às 8h da noite. Como eu já achava om homenzinho ‒ já paquerava – balancei a cabeça confirmando. Passei o resto do dia entre o medo e a vontade de ir ao encontro daquela moça. Afinal, se ela me convidou, é porque queria... E isso terminou pesando na minha decisão. Menti em casa  que iria a um aniversário no mesmo bairro, peguei um ônibus às 19 h 30 min e fui para o centro da cidade.  Desci na esquina da Casa das Bicicletas. Olhei rapidamente para o prédio onde Arteiro havia assassinado recentemente Melo e, de súbito, senti um arrepio no corpo. Para piorar, a iluminação da Rua 13 de Maio era tétrica. Evitando olhar para os lados, a passos largos, caminhei e só parei em frente à casa onde morava a minha “sedutora”. Pairava sobre mim um misto de medo e de ansiedade. Olhei por cima da mureta, pareceu-me ser ela sentada no batente da porta. Pedi licença, abri um portãozinho de ferro e adentrei a área da casa. Quando virei de frente, arriscando um boa noite, não havia mais ninguém no batente, apenas a porta da casa entreaberta. Estático, eu ouvia passos e a voz indecifrável  de uma pessoa no interior da casa. O medo me fez lembrar do crime pavoroso que acontecera no sobrado ao lado e não pude evitar o pensamento de associar uma visagem de Mariquinha com a moça  com quem iria encontrar-me. E, como adolescente que eu era, esmoreci. Senti calafrio. Tremi. Apavorei. Quis rezar, não sabia. Quis retirar-me, não tive coragem de virar de costas. De repente, visualizei uma mão preta feminina com as unhas pintadas de branco abrindo a porta, em seguida ouvi o ruído de passos arrastados aproximando-se e uma voz cavernosa que ordenou:

─ D e i x a - o  e n t r a a r r r!

Saltei por cima do portãozinho de ferro e corri, corri e, correndo, passei a sentir a sensação de que aquela mão estava  tocando no meu ombro, tentando segurar-me. Aí continuei a correr gritando socorro. Só parei cerca de um quilômetro depois, numa parada de ônibus, na Rua de Santana, onde algumas pessoas me acalmaram. Deram-me água com açúcar. Ufa!!!

(Rua 13 de Maio! Terminou sobrando para mim!)

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