O TROCO
Era uma requintada sorveteria localizada numa praça, na cidade do Rio de Janeiro. Estava cheia de crianças da redondeza, quase todas acompanhadas de mães, tias, irmãs, babás... A tarde era de muito calor e a bonita garçonete servia, com muita simpatia, variados tipos de sorvetes a todas aquelas crianças e aos seus acompanhantes.
Ele chegou só. Entrou e sentou-se. Aparentava uns sete anos de idade. Era preto e, apesar de limpo, as suas vestes eram muito simples. No rosto, um olhar observante de tudo o que ocorria a sua volta. Admirava o tamanho das grandes taças transbordando de suculentos sorvetes sendo servidas e, paulatinamente, saboreadas; esperançoso da aproximação de algum daqueles meninos bem vestidos para também compartilhar da alegria, mas logo entendeu que era mais sensato curtir a alegria de todos, sem se manifestar. Lógico que o seu coração de criança inocente, inevitavelmente, saltitava com o blá, blá, blá do ambiente. Tudo lhe parecia fascinante. Os retratos no alto das paredes ostentando os tipos de sorvetes, os grandes ventiladores no teto... Contudo, algo lhe chamara mais atenção. Percebeu que quase todos que pagavam suas contas e saiam deixavam sobre a mesa moedas ou cédulas e diziam para a graciosa garçonete: -
─ O troco é seu!
A garçonete beijava as crianças e agradecia sorridente. Ele achou aquilo o máximo. De repente, ele ouviu:
─ Deseja alguma coisa? - Era a bela garçonete sem a mesma simpatia dispensada aos outros fregueses.
− Quanto custa um sorvete pequeno de morango? – quis saber.
− Três reais!
− Não tem um mais barato?
─ O de coco. Custa dois reais!
− Quantas bolas vêm no sorvete de coco de dois reais?
─ Duas bolas!! – disse a garçonete já perdendo a paciência.
− Eu quero um sorvete de coco com uma bola!
─ Vai tomar o sorvete aqui??
− Posso? – quase suplicando.
− Se não demorar...
O sorvete foi servido num cartucho de trigo. Mal ele acabou de tomar o sorvete, a garçonete, que não lhe tirava os olhos, presumindo que ele poderia sair sem pagar, aproximou-se rapidamente e lhe disse em voz baixa:
─ É um real! Paga e vê se não aparece mais aqui!
Naquele instante, ele nem se importou com o que ouvira, ainda não entendia de humilhação, muito menos de preconceito racial e, pelo contrário, o seu rosto inocente se iluminou num sorriso triunfal de satisfação, ao tirar do bolso uma nota de dois reais, entregar à garçonete e poder dizer a ela o mesmo que os meninos “do bem”, que ali frequentavam, diziam:
− O troco é seu!!!
A garçonete era minha irmã. A sorveteria era do noivo dela. Ela me confidenciou que o menino saiu da sorveteria sem entender porque, ao invés do costumeiro beijo sorridente de agradecimento pelo troco, ela passou a chorar copiosamente, a ponto de não conseguir mais trabalhar o resto do dia. Ela esperou vários dias pela volta daquele menino à sorveteria para tentar se redimir lhe ofertando o maior sorvete possível, lhe pedir perdão e beijá-lo com afeto, mas ele nunca mais voltou lá. Procurou informar-se sobre ele, o máximo que conseguiu foi saber seu nome: Vinícius. Maria Rosa Viegas (a bonita garçonete) faleceu de depressão / AVC, no Rio de Janeiro, em 2010, carregando consigo esse trauma. Sempre que se lembrava daquele menino, saia ansiosa de casa para procura-lo naquela praça − Bota troco nisso!
(Será que o Vinicius da praça o é o mesmo Vinicius Jr, jogador de futebol, até hoje traumatizado com preconceito de cor?... Faz sentido. Vinicius Jr nasceu no Rio de Janeiro e as datas coincidem)




