A MULHER DO PRÓXIMO
No frescor da adolescência, Maria Eugenia, nascida no povoado de Matões, no município de Viana, na Baixada Maranhense, pescava diariamente com o pai nas barrancas do rio Pindaré para ajudar no orçamento da casa. Entre uma fisgada e outra, ela sonhava com uma vida melhor numa cidade grande. Mas o destino traiçoeiro empurrara-lhe um caminho ainda mais íngreme.
Um pescador de nome Josué Romão Silva, apelidado de Caveirinha, morador do mesmo povoado, em uma malemolência da vida, teve um “momento” de amor com a sonhadora Maria Eugênia e fez comentários do ocorrido. Mesmo sabendo das crises de ciúmes precoces do pescador ‒ nem namorados eram ‒ para manter a honra da família, ela casou-se com o rude e mau-caráter Caveirinha.
Cedo Maria Eugênia descobriu sua falta de vocação para uma vida doméstica. Não nascera para ser dona de casa nos moldes tradicionais de uma mulher presa a um homem. Ela trazia no sangue aquela inquietação, o desejo de experimentar o desconhecido. Surgiu Tarciso, um primo ignorado, provindo do Piauí, que chegara para passar férias e rever Matões, sua terra natal. Tarciso era alto, magro, fala diferente e estava sempre perfumado. Maria Eugênia encheu-se de encanto por Tarciso, e ele por ela. Na ausência de Caveirinha, eles trocavam confidências, abraços e beijos “amistosos”.
Caveirinha, inquieto com a presença indesejável do primo da mulher, passou a encher a cara de cachaça, e a coisa aconteceu: naquela noite, enquanto Caveirinha bebia cachaça jogando carteado no bar de Misael, Maria Eugênia, refém de um sentimento avassalador pelo primo, beijou-o, deixou-se beijar intensamente e, por fogosidade sexual dos dois, foram parar na cama. Caveirinha, ao voltar da cachaçada, vendo a porta da casa fechada e ouvindo gemidos abafados, não teve dúvidas: meteu o pé na porta, escancarando diante dos olhos a cena do crime.
― Que sacanagem é essa?...
Espumando de raiva, lançou-se sobre Tarciso como um bicho selvagem... Tarciso, lépido, pulou a janela entreaberta e ganhou a rua completamente despido, causando espanto e olhos esbugalhados dos vizinhos que conversavam nas portas. Com os cornos ardendo, as mãos do pescador caíram pesadas sobre o pescoço da mulher, apertando-o até quase desfalecer. Depois a pegou pelos cabelos e conduziu-a até a frente da casa. Diante do olhar estupefato da plateia, jogou-a no meio da rua. Na queda, Maria Eugênia bateu o nariz de encontro a uma pedra, provocando sangramento. Dois policiais de Viana que saíram do bar de Misael agiram rápido, e Maria Eugênia escapou da morte por uma dessas conspirações do destino. O pescador foi preso em flagrante jurando vingança. Maria Eugênia entendeu que seu destino estava selado, a menos que desse o fora dali. Contando com a ajuda da família, rumou para a capital, com uma trouxa e algumas cédulas. Alugou uma porta e janela às margens da BR ‒ 135, que transformou em “parada obrigatória” de homens à procura de sexo. Fixou na porta do casebre um cartaz com a inscrição: “A MULHER DO PRÓXIMO”. E assim, a cada cliente atendido, gritava para a fila: o próximo! Chegara a ter dez clientes por noite. Logo ficou famosa pela satisfação que dava a todos aqueles que com ela se deitavam.
Numa noite de lua cheia, ao terminar de atender um cliente, levantou-se, arrumou a cama, foi ao banheiro e olhou-se no espelho. Ao rever a cicatriz no nariz, lembrou-se de Caveirinha e pensou: se ele fosse menos ciumento... mas um dia ele me paga!... Retocou os lábios com batom e chamou o próximo. Apesar de muito abatido pelos anos, barba por fazer, cabisbaixo, ela reconheceu Caveirinha. Com muita frieza, sem temor, consciente de sua supremacia, preparou-se para recebê-lo em coito, quando ele interveio:
― Não vim deitar contigo! Vim para te levar de volta pra casa. E ela respondeu que era tarde demais. Agora ela era mulher de muitos homens e gostava de ser. Além do mais, jamais perdoaria a agressão que provocara ferida no seu corpo e na sua alma. Afirmou ser muito feliz por não ser encabrestada por homem nenhum. Ele falou que, sem ela, a vida perdeu o sentido, e implorou uma sociedade:
― Eu entro com o dinheiro e também com o trabalho. Nas horas de folga, tu serás minha. Maria Eugênia demarcou o terreno:
― Eu sou do mundo. Do mundo por dinheiro. Se for pra eu continuar aqui ganhando o meu dinheiro, fazendo o que gosto, e tu ajudando, quem sabe?...
Selada a sociedade, o pescador reformou a casa, construiu um segundo pavimento para a privacidade do casal, trocou a placa da entrada por uma maior e luminosa e comprometeu-se a organizar a fila de clientes. No seu primeiro dia de “trabalho”, focado como todo iniciante que precisa fazer bem feito para agradar ao patrão, ficou atento aguardando a mulher consultar o espelho, retocar o rosto com Rouge Carmi e ordenar: “já pode!” Ele, então, temperou a garganta com um, hum-hum, e iniciou o seu trabalho de todas as noites, chamando:
― O PRÓXIMO!




