Tragédia de Copacabana
Nada mais ilustrativo do que o fato de o linchamento de um inocente ter ocorrido no bairro da mais famosa praia brasileira, em meio a um clima de diversão e de roda de samba. De pronto: mesmo que fosse um ladrão de bicicleta ou de qualquer outra coisa, o crime teria a mesma gravidade.
Num dia como qualquer outro, um homem resolve dar uma volta pela cidade e se utiliza da bicicleta da irmã. Foi para um local de seu interesse.
Nessa rua havia um “segurança” que, pela sua própria análise, deveria detectar ladrões em razão do que cada pessoa teria condições de possuir ou não, ou de portar determinado bem ou objeto supostamente roubado.
Daí, chegou à conclusão de que a bicicleta que estava em posse de Cláudio Rafael Landeiro era roubada. Segundo o noticiário, indagado sobre qual elemento indicativo o havia levado a essa conclusão, a resposta foi que nenhum havia.
Mesmo assim, com outro segurança da rua, conseguiu um porrete, e a pessoa que aparece nas imagens entregando o objeto também não deve ser ignorada pelas investigações. Em seguida, começou a sessão de tortura.
Como se fosse um festim, ao encontrar dois entregadores no corre-corre do espancamento, os convidou para participarem do entretenimento da tortura. O pior é que os rapazes aceitaram com a maior naturalidade do mundo. Essa predisposição ao sadismo ainda teve o reforço de outro homem, que parou o carro para dar alguns golpes.
Além desses, alguns passaram, viram e ignoraram. Existe o medo mesmo de sobrar para quem tentar, mas não consta que alguém que tenha presenciado a cena tenha se afastado para chamar a polícia. Não consta que, mesmo entre os participantes, alguém tenha se compadecido, achado suficiente e pedido para parar.
Também merece observação o fato de a tortura ter durado de seis a nove minutos, com mais de 60 pauladas, algo que certamente deve fazer barulho e nenhuma imagem instantânea ter sido captada pela polícia e nenhuma viatura passou pelo local. Também não passou quando outros resolveram matar Moïse Mugenyi Kabagambi.
Estava tão divertido que um dos agressores aparece rindo nas imagens, depois de deixarem o rapaz desfalecido no chão. É o mesmo que concluiu que a bicicleta era roubada sem nenhuma informação e que, “apenas” com pouco mais de sessenta pancadas, principalmente na cabeça, não tinha a intenção de matar, nem a noção de que esse número de golpes poderia matar até um robô.
Como o número de assassinatos no Brasil passa de 40 mil por ano desde 1997, ininterruptamente, matar pessoas foi se naturalizando. E, para alguns, chega a ser entretenimento. Porém, pela banalidade ou crueldade, alguns casos tomam conta do noticiário.
Muitos morrem por engano, como se fosse possível matar alguém “por engano” sem que isso revelasse uma gravidade extrema. Polícia mata por confundir guarda-chuva com fuzil. Mata-se jogando gás no fundo de uma viatura fechada. Policial se aborrece e joga um homem de uma ponte como se essa fosse a ação mais natural do mundo. Mata-se tocando fogo num índio vivo. Pais matam filhos pequenos para atingirem as ex-companheiras. Patroa é acusada de matar empregada para não pagar o que devia. Outra deixa o filho de cinco anos da empregada sozinho num elevador.
Outro ponto que ajuda a normalizar a cultura da matança vem da própria legislação. O Código Penal, em seu artigo 121, define o título como homicídio simples. Não existe homicídio simples. E o Congresso tem de aumentar a pena mínima para, ao menos, 20 anos de prisão efetiva, sem direito à progressão nesse período. Nenhuma medida isolada resolve, mas todas as instituições precisam agir no combate efetivo à violência. Só com discurso, com o apertar de botões disso e daquilo e com assassinos respondendo a processo em liberdade, chegou-se ao genocídio brasileiro, talvez irreversível. Mas, pelo menos, a matança por diversionismo talvez diminua.
"NÃO HÁ DEMOCRACIA ONDE O VOTO É OBRIGATÓRIO"




