O professor de primeiras letras: Antônio de Bibinha
ANTÔNIO AMÂNCIO DOS SANTOS, conhecido por Antônio de Bibinha, nasceu em Guanambi, no dia 28 de outubro de 1925, ele era filho natural de dona Rita (Bibinha) Amâncio de Lima, exemplar funcionária da Prefeitura Municipal e amiga conselheira de todos os moradores da cidade. Nos meados da década de quarenta o jovem Antônio de Bibinha iniciava o aprendizado do ABC, com a formação das palavras e, também, o ensino da antiga tabuada para os meninos e meninas de Guanambi. Agora, muitos desses seus alunos estão hoje desempenhando elevados postos em diversos setores por todo este Brasil afora.
Na verdade, o professor Antônio de Bibinha era tão somente um autodidata, era também um inveterado pelo rádio, o que lhe dera maior conhecimento das coisas e dos fatos. Aprendera com esforço próprio a ler e escrever. E quem soubesse esses ofícios era considerado um professor. O método de ensino utilizado por ele era o convencional, ou seja, na base do castigo e da palmatória.
A escola de Antônio de Bibinha ficava localizada na Rua Rui Barbosa, numa dependência da casa de sua mãe. Ainda morava com eles dona “Docha”, sua tia, que acostumava ficar de cócoras no batente da porta da rua, fumando e seu cachimbo de barro e sempre nos ralhava por alguma coisa de errado que fazíamos. Às vezes os seus pensamentos flutuavam nas baforadas de fumaça e se perdiam pelo espaço do tempo.
As palmadas de palmatórias recebidas naquela época são hoje lembradas sem ressentimentos. Recordo-me de certa vez, isso no último quartel do ano de 1955, quando um dos nossos colegas deixou escapulir, durante a aula, um fétido peido. Imediatamente o professor Antônio de Bibinha nos ordenava que estivéssemos, sobre a mesa, as nossas mãos bem fechadas e disse: “quando você abrir a sua mão e se nela tiver nascido um fio de cabelo, foi porque fez isso...”. Certamente que todos nós permanecemos com as nossas mãos fechadas sobre a mesa. Enquanto isso, ele nos pedia que abrissem-nos as mãos, uma após a outra. Entretanto, com medo de achar o tal fio de cabelo, eu me recusei a cumprir o que erasolicitado pelo professor. Naquele dia fui injustamente castigado com doze palmadas, sendo seis delas em cada mão. Foi uma injustiça porque não teria sido eu o autor daquela ventosidade, mas a inexperiência me traiu na hora da decisão.
A “privada” tinha apenas uma cortina de chita na porta e era de uso coletivo. Portanto era necessário usar a criatividade para não haver nenhum contratempo na hora de utilizá-la. Usava-se, então, uma caixinha de fósforos (marca beija-flor) em cima da mesa do professor. Se ela estivesse aberta era porque a “privada” estava desocupada, se fechada, teria que esperar um pouco mais até que alguém viesse abri-la, sinalizando que a “privada” estaria sem uso naquele momento.
Antônio de Bibinha admirava o futebol e por isso mesmo ele frequentava os campos de jogar bola. Torcedor incondicional da Associação Atlética Veteranos, de Guanambi e do Santos Futebol Clube, nos tempos do rei Pelé. Acompanhou, desde o início, os testes da loteria esportiva, fazendo a sua fezinha toda semana.
A cidade de Guanambi, como não poderia deixar de ser, cresceu e desenvolveu muito no setor educacional. Vieram então os grupos escolares do estado e do município o que obrigou o professor Antônio de Bibinha a fechar a sua escola. Ainda assim ele persistiu na formação de uma turma de adultos, o que durou muito pouco tempo. Tendo em vista a fracassada tentativa de reabrir a sua escola, o professor Antônio de Bibinha passou a trabalhar no comércio de cereais. Depois de uma existência volvida para o bem comum. Ele faleceu no dia 26 de julho de 1993, deixando-nos um belo exemplo de vida, em que o trabalho e a cultura formavam-se a base da prosperidade e da sabedoria.




