Sertão Hoje

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Ricardo Stumpf

Ricardo Stumpf é graduado em Arquitetura, com especialização em Desenho Urbano, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Lingüística: leitura e produção de textos pela Universidade do Estado da Bahia (2007).

E DEPOIS DA POBREZA?

Pobre presidente Dilma, pegou um abacaxi.

Lula lhe deixou uma agenda de eventos internacionais pesadíssima: copa do mundo e olimpíada. Dá a impressão de que fez de propósito, para que Dilma se atrapalhasse e ele pudesse voltar como salvador da pátria em 2018.

Pior do que isso, deixou uma base aliada composta de partidos de aluguel, que só funcionam na base da propina ou do cargo comissionado, e um passivo monstruoso de corrupção praticado por pessoas que ele indicou para os cargos das principais estatais, situação que começou a aparecer com o mensalão, e quando pensamos que não, aquilo era só a pontinha do iceberg que vem se revelando gigantesco, com a operação lava-jato.

Mas apesar de tudo, Dilma tem tido uma postura muito digna. Resiste a tudo e não há nada que a desabone até agora. Falta ela romper com o PT, mandar tudo isso às favas, dar um murro na mesa e governar do jeito que ela quiser. Mas isso ela não pode fazer agora, senão viria tudo abaixo.

Melhor seguir levando como pode, enquanto assiste ao desmoronamento do PT, do PMDB, do PSDB com suas posturas cada vez mais golpistas e desesperadas, e do espectro todo da política atual brasileira.

Os partidos que surgiram nos anos 80, e participaram do movimento das Diretas já, que ocasionou a queda da ditadura, se esgotaram. Não me refiro às legendas de aluguel, mas aos partidos de verdade, que podem se resumir ao PT, PMDB, PSDB, PDT, PCdoB, PSB e DEM, sendo que esse último é o herdeiro das ideias da Arena, antigo partido que representava a ditadura militar.

Nesses 30 anos de volta da democracia, primeiro governou o PMDB, com Sarney, depois houve aquela confusão do governo Collor, que inventou um partido para lhe dar sustentação e fracassou, aí veio o PSDB, que promoveu a estabilização da economia, mas expôs o Brasil ao perigoso jogo do neoliberalismo, dilapidando nosso patrimônio público ao vender as estatais a preço de banana, no maior escândalo de corrupção (não investigado) já ocorrido no país, e aí entrou o PT com suas políticas sociais para acabar com a pobreza.

Apesar dos pesares, o Brasil conseguiu avançar. Saímos de uma economia engessada e cartelizada para uma economia aberta, voltada para o empreendedorismo e conseguimos erradicar grande parte da pobreza endêmica que sempre nos assolou, herança da escravidão.

E agora, para onde vamos? As propostas dos partidos que estão aí parecem ter se esgotado. Falta um rumo novo para o Brasil. Marina Silva, que parecia ter uma proposta nova, naufragou ao tentar juntar sua religião com a política, insistindo numa proposta oportunista de misturar meio ambiente com internet, no tal partido Rede Sustentabilidade.

A verdade é que faltam ideias para o futuro e a organização política surgida da Constituição de 1988 já não nos serve mais. Precisamos de uma nova representatividade, com mais democracia, onde pequenos grupos de eleitores possam eleger seus representantes, para reivindicar demandas locais, setorizadas, sem depender das grandes coligações que transformam tudo numa geleia geral. É preciso aperfeiçoar os mecanismos de consulta popular e de controle da corrupção, permitindo que a democracia seja cada vez mais direta.

Porém, mais do que uma nova organização política, nos falta um norte, um caminho novo, um rumo para que o Brasil alcance no século XXI a dimensão que lhe é devida no mundo.

Estabilizada a economia, reorganizada a democracia, erradicada a pobreza (o que não é pouco), nos cabe agora caminhar pela senda da ciência, da tecnologia e do meio ambiente, e para isso precisamos fazer uma grande reforma educacional, federalizando o ensino básico, médio, técnico e superior, alavancar nosso programa espacial, de preferência em parceria com outros países da América latina, zerar a devastação da Amazônia, recuperar rios e florestas, investindo em novas fontes renováveis de energia, em pesquisas nas áreas de física, biologia e química, com aplicações diretas em computação, medicina, fármacos e alimentos (seguindo o bom exemplo da Embrapa).

Além disso precisamos promover a desconcentração da mídia, a estatização da saúde e a reforma urbana, três trincheiras do grande capital que emperram a democratização da nossa sociedade, aprofundando ainda a reforma agrária (tornando-a produtiva), promovendo a construção uma sociedade avançada.

Para isso precisaremos de novas lideranças e partidos, pois os que estão aí, como dizia Cazuza, só nos deixam com o coração partido.