Sertão Hoje

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Colunistas

Ricardo Stumpf

Ricardo Stumpf é graduado em Arquitetura, com especialização em Desenho Urbano, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Lingüística: leitura e produção de textos pela Universidade do Estado da Bahia (2007).

Esaú e Jacó

Um dos últimos livros de Machado de Assis, publicado em 1904, Esaú e Jacó conta a história de dois gêmeos, Pedro e Paulo, que a exemplo dos dois irmãos bíblicos, eram diferentes.

Passado no Rio de Janeiro, no final do século XIX, o romance é contemporâneo da proclamação da república, e nos dá uma visão de como a sociedade carioca e brasileira viveu os momentos finais da escravidão, do regime monárquico e os acontecimentos do dia 15 de novembro de 1889.

Mais do que isso, Machado nos revela os costumes e a mentalidade de uma época, em que o Rio sediava a Corte, com os bailes do imperador, as disputas políticas entre liberais e conservadores e os ideais republicanos.

Contada pela ótica de um diplomata aposentado, o Conselheiro Aires, a história se passa em meio a duas famílias aristocráticas, que disputavam os favores políticos do Imperador (os Batista) e os primórdios do capitalismo (os Santos), das quais o Conselheiro era amigo e frequentador.

Na família Santos nascem os gêmeos e na Batista a moça Flora, por quem os dois se apaixonam e passam a disputador o amor. Flora, no entanto, apaixona-se pelos dois e não consegue decidir entre um e outro, gerando o impasse que serve de pano de fundo para que o escritor, com sua prosa detalhista, vá nos guiando pelo universo de um Rio de Janeiro que já era uma velha cidade na época, e assim vá penetrando na alma de cada personagem que faz surgir nas suas páginas.

Uma das características de Machado de Assis, o diálogo com o leitor, quando ele comenta o próprio fazer do livro e faz suposições sobre quem o estará lendo, nos atinge sempre de forma surpreendente e agradável, num misto de antecipação do futuro e de consideração com quem o lê, na medida em vai revelando sua compreensão profunda e universal do ser humano, razão maior da longevidade da sua obra.

Pedro, o monarquista que se torna médico, e Paulo, o republicano que se torna advogado, talvez sejam uma prévia mais amena do que vivemos hoje dentro de tantas famílias, divididas pela política.

Apesar dos constantes esforços da mãe, Dona Natividade, nada consegue unir os gêmeos, que desde o útero materno já discordam e brigam.

Essa é a imagem inicial do livro, quando a mãe e a tia sobem o antigo Morro do Castelo, que hoje não existe mais, para consultar uma “cabocla” que fazia predições. Esta, depois de examinar as fotos dos recém-nascidos e tocar mechas de cabelos de cada um, pergunta se eles haviam brigado na barriga da mãe.

Natividade, surpreendida pela pergunta, se recorda que realmente teve uma gestação agitada, com alguns momentos em que os dois meninos pareciam disputar o espaço na placenta.

Ao final, quando ambos ingressam na política por partidos opostos, consolidando as visões de mundo diferentes, tem-se a impressão que o “bruxo do Cosme Velho”, como Machado de Assis era chamado, conseguiu prever o nascimento de um país irreconciliavelmente dividido entre conservadores, que preferem a estabilidade, e progressistas, que querem ver a sociedade lançar-se para o futuro, situação que vivenciamos hoje em forma de farsa.

Dentre os melhores trechos do livro, destaquei um, retirado do capítulo em que o Conselheiro assiste à prisão de um suspeito de roubo nas ruas cariocas, sob protesto de populares que acreditavam na inocência do homem que,inconformado, bradava contra a injustiça de que estaria sendo vítima.

“...imaginou que a grita da multidão protestante era filha de um velho instinto de resistência à autoridade. Advertiu que o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás lhe dera um paraíso para viver; mas não há paraíso que valha o gosto da oposição. Que o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo à força e ao bel-prazer, vá também; é o que se dá com a planta, quando sopra o vento. Mas que abençoe a força e cumpra as leis, sempre, sempre, sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho Adão.”

Um recado para aqueles que julgam poder fazer o que querem com o povo brasileiro, testando sua paciência até o limite.