Sertão Hoje

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Ricardo Stumpf

Ricardo Stumpf é graduado em Arquitetura, com especialização em Desenho Urbano, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Lingüística: leitura e produção de textos pela Universidade do Estado da Bahia (2007).

Amar, verbo intransitivo

Mário de Andrade escreveu esse seu primeiro romance, entre 1923 e 1927. O livro veio à público em 27, cinco anos após a semana de arte moderna, que introduziu o modernismo no pensamento e na arte brasileira, apesar das reações contrárias que despertou no meio acadêmico e intelectual da época.

Mas é sempre assim com tudo que é novo e nasce rompendo barreiras. Hoje, 90 anos depois da primeira edição, o livro continua atual e ainda polêmico, apesar de ser um retrato do seu tempo.

Uma família burguesa paulistana contrata uma governanta alemã para iniciar sexualmente seu filho adolescente, com medo que ele se perdesse em meio a prostitutas e vícios, dada a repressão que havia na época à prática do sexo por parte das meninas de família.

Aliás, não faz muito tempo ainda era assim. Os meninos tinham que ser iniciados cedo e as meninas proibidas de qualquer contato sexual antes do casamento, precisavam chegar virgens ao altar.

O tema poderia se tornar vulgar, não fosse à tendência às elocubrações  filosóficas e morais da personagem que, já embuída do sentimento de superioridade racial dos alemães que viria desaguar no nazismo poucos anos depois, endeusava autores e mitos germânicos, fazendo da cultura erudita um disfarce para sua verdadeira função de sedutora oficialmente contratada.

Enquanto tenta seduzir Carlos, o filho dos Souza Campos, para iniciá-lo de forma “responsável” nos prazeres do sexo, Fräulein ensina alemão, música e literatura aos filhos da família, auxiliando a mãe, Dona Laura, no cuidado com as crianças.

O tema insólito retrata de forma surpreendente o que o autor chama de a “constância da sociedade brasileira”, em contraposição às transformações por que ia passando a Europa.

A convivência conflituosa da “governanta” alemã com Tanaka, o mordomo japonês, traça, em paralelo, um panorama interessante do difícil processo de assimilação dos imigrantes no Brasil, numa época em que nosso país parecia um porto seguro para os demais povos.

Mário de Andrade, nos comentários que faz sobre o livro destacados na edição da Nova Fronteira (coleção Clássicos para todos), mostra grande preocupação em renovar a maneira de escrever, utilizando-se de linguagem coloquial e misturando regionalismos de várias partes do Brasil, o que escandalizou os críticos da época.

Sua preocupação era tentar construir uma identidade brasileira através da linguagem, intenção que se evidenciaria no seu livro seguinte, Macunaíma. Algumas expressões que ele usa ainda são utilizadas hoje, outras caíram em desuso.

Mas o mais interessante sobre o livro é a inevitável comparação entre um Brasil recém-saído do conservadorismo monárquico, contra o qual se batia Mário de Andrade, e nossa situação atual em que os fundamentalismos tentam ressuscitar o que houve de pior na nossa história, escudados em um pretenso moralismo.

Igrejas de todos os matizes, principalmente as chamadas neopentecostais, se esforçam para anular todas as conquistas relativas aos costumes, alcançadas no século XX, dentre elas a revolução sexual que libertou as mulheres do jugo do poder masculino e oficializou as relações entre pessoas do mesmo sexo.

Essa reação de setores religiosos ultraconservadores, aliada ao renascimento da direita fascista no mundo inteiro, que sonha em anular as conquistas sociais dos trabalhadores e cidadãos em geral, como aposentadoria, décimo terceiro salário, jornada de oito horas, políticas de promoção da igualdade racial e educação universal e gratuita, apoiada por discursos de ódio estimulados pelas elites de potências estrangeiras em declínio, que veem minguar sua influência hegemônica sobre o mundo, estimulam a violência contra mulheres, gays, negros, trabalhadores e livre pensadores, tentando reeditar o controle que detinham sobre corações e mentes, lutando contra os ventos da mudança que se anuncia inexorável e definitiva.

Tudo isso soa como um derradeiro esforço para fazer sobreviver ideias que sucumbem num mundo cada vez mais conectado, consciente e ágil. Agem como parturientes que se empenham em impedir uma criança de nascer, mesmo que para isso seja preciso matá-la. São espectros de um mundo que tendo encontrado seu final, se recusa a morrer.

Assim como os críticos de Mário de Andrade há 90 anos, esforçam-se para negar a realidade que surge com força avassaladora. É certo que ainda farão muitas vítimas na sua inútil tentativa de fazer o planeta parar de girar, mas nada poderão contra a energia vital que constrói e reconstrói esse mundo, cuja principal manifestação encontra-se no amor, como anunciado por todos os profetas.

E por mais que se tente dar ao amor uma função lógica, simplesmente reprodutiva, ou prática e funcional, como fazia a Fräulein do livro, tentando justificar-se perante o espelho, o seu sentido é auto-aplicativo, não podendo ser controlado ou explicado e sujeitando quem ama a surpresas e imprevistos.

Amar explica-se por si mesmo, por isso é um verbo intransitivo.