Sertão Hoje

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Ricardo Stumpf

Ricardo Stumpf é graduado em Arquitetura, com especialização em Desenho Urbano, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Lingüística: leitura e produção de textos pela Universidade do Estado da Bahia (2007).

Fragmentos

Um advogado me dizia, há alguns anos, que médicos e juízes são os mais arrogantes dentre todas as profissões. Talvez por terem em suas mãos o destinos de tantos seres humanos, alguns deles se achem verdadeiros deuses.

Eu, como arquiteto, já tive alguns clientes médicos muito difíceis. Uma colega abandonou a profissão de arquiteta por causa de uma cliente médica. Depois de desistir dela, passou a cliente para mim, que também não consegui atender os pedidos mais esdrúxulos que ela fazia. Toda hora mudava de opinião, me ligava às onze da noite no domingo fazendo exigências e coisas do gênero.

Não mudei de profissão, mas abandonei a cliente, apesar dos apelos desesperados do seu marido, que não aguentava mais ter que lidar com a obra da casa deles.

Juízes, graças a Deus, nunca tive que lidar com eles.

Mas no momento político que estamos vivendo, fico impressionado com a prepotência e arrogância dos juízes, especialmente de dois deles: Gilmar Mendes e Sérgio Moro.

O primeiro se acha no direito de dar palpites em tudo, se metendo na seara alheia, criticando as leis, que ele deveria fazer cumprir, e falando abertamente sobre os casos que julga, quando deveria manter-se em atitude respeitosamente prudente. Além disso não esconde suas inclinações político-partidárias, almoçando com políticos golpistas, criticando um partido e silenciando em relação a outros, numa clara demonstração de preferência que vai contra a regra básica da isenção, que todo juiz deve manter.

O segundo, inflado pela mídia de direita e alçado a justiceiro-mor do Brasil, se acha no direito de rasgar a Constituição à toda hora para atingir seus objetivos, não se contentando em instaurar a tortura psicológica sobre os suspeitos presos para averiguação, até que decidam delatar os que ele quer atingir.

Não satisfeito de instalar escutas clandestinas em celas de prisioneiros, para gravar conversas com advogados, ou em telefones de altas autoridades e vazar seus conteúdos segundo suas conveniências, inclusive da própria presidente da República, agora se acha no direito de invadir o Congresso Nacional para prender membros da polícia legislativa, que faziam varreduras nas casas de senadores para desarmar possíveis mecanismos de espionagem.

Note-se que não se trata de escutas em locais de trabalho, mas em domicílios de senadores e, até onde eu saiba, segundo nossa Constituição o domicílio é inviolável.

Será um crime alguém se defender de uma possível violação de seu domicílio? Se for, não existem mais limites, nem garantias para nenhum de nós. Não se trata de defender corruptos, mas de assegurar nossos direitos, que em nome de uma cruzada moralizadora não podem ser jogados no lixo.

E segundo a lógica desse juiz "moralizador", parece só haver corrupção no legislativo e no executivo. Não existem corruptos no judiciário? Não existem juízes que vendem sentenças para soltar criminosos? Não existe corrupção entre os empresários? No futebol? Na mídia? Entre o próprio povo, não há corrupção?

A impressão que tenho desses tempos que estamos vivendo é que tudo está se fragmentando. As pessoas se informam pelo Facebook ou pelo Whatsapp, até porque já não confiam nos telejornais, manipulados para apoiar golpes em favor de interesses escusos, e vão formando opiniões ao juntarem pequenos fragmentos de ideias.

Uma afirmação aqui, outra ali, mesmo em contextos contraditórios, vão formando na cabeça das pessoas uma espécie de mundo virtual onde eles se escondem da realidade.

Conheço uma mulher negra que é adepta de Bolsonaro. Existe contradição maior? Um deputado que apóia torturadores, que faz declarações machistas contra as mulheres e não esconde seu racismo? Mas ela diz que concorda com uma ou outra coisa que ele diz. Então junta os pedaços e forma um mundo irreal, onde se sente segura, construindo uma realidade virtual com esses fragmentos, como quem escolhe as frutas que mais gosta numa salada de frutas.

Esta parece ser uma era onde as pessoas falam muito mas ninguém se entende e, para manter a lucidez, é preciso se desconectar das redes, desligar a televisão e reaprender a olhar para as nuvens, os pássaros e principalmente para os outros seres humanos, reaprendendo a dialogar.