Sertão Hoje

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Ricardo Stumpf

Ricardo Stumpf é graduado em Arquitetura, com especialização em Desenho Urbano, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Lingüística: leitura e produção de textos pela Universidade do Estado da Bahia (2007).

Porque não voto em Dr. Cristiano

Sei que minha opinião não vai mudar nada em relação à disputa que travam os descendentes das famílias escravocratas, que dominam a pequena Rio de Contas há séculos, mas me sinto no dever de esclarecer minha posição aos que ainda me dão algum crédito, pois mantive um blog político durante muitos anos, assim como uma coluna neste jornal, que era lida por bastante gente.

Dr. Cristiano é uma pessoa gentil e simpática. Gosta de ajudar as pessoas e devo a ele o fato de ter ido à minha casa me avisar da gravidade do meu estado de saúde, após um exame de sangue de rotina, que revelou o estado elevado de meus triglicerídeos, açúcar e outros indicadores, que poderiam me levar a um acidente cardiovascular, com risco real de morte.

A partir daquele momento pude me medicar e mudar minha alimentação, até voltar aos indicadores normais, como estou agora. Talvez sem o aviso diligente dele eu não estivesse mais aqui a opinar sobre política.

Porém, creio que o voto não deve ser dado por gratidão, assim como tampouco deve ser exercido com ressentimento. Voto é para ser praticado com consciência. Quando votamos para prefeito e vereadores, não estamos elegendo amigos nem retribuindo favores, estamos escolhendo o destino de toda uma comunidade durante os próximos quatro anos. Votar para ter no poder um amigo e conseguir favores ou benefícios é um ato de egoísmo, de quem deixa de lado o bem comum para pensar apenas nos seus próprios interesses.

Sabemos que tem sido assim durante muitos anos, ou talvez desde sempre. Troca-se votos por consultas médicas, telhas, tijolos, exames de ultrassom, empregos para parentes e coisas do gênero, mas as cidades permanecem paralisadas, atrasadas, empobrecidas.

Pessoas continuam desempregadas, mal atendidas nos serviços públicos, notadamente nos hospitais e escolas, enquanto pequenos grupos que vivem às custos do dinheiro público se eternizam no poder, governando para si próprias, como se fossem donos do dinheiro público arrecadado dos impostos.

O Brasil atravessa um período muito difícil, em que uma conspiração das elites contra os interesses populares tenta destruir o legado de governos populares, que mal ou bem tem conseguido melhorar a vida do povo, coisa que sempre desperta o ódio das elites, essas mesmas elites escravocratas que escravizam a vida política de Rio de Contas, acostumadas a tratar o povo como gado.

Em 2012 votei em Dr. Cristiano, porque ele pertencia a uma frente política heterogênea, disputando pelo PDT, um partido de fortes tradições democráticas, com o apoio da esquerda, contra um grupo neoconservador de oportunistas que se reveza no poder há anos.

Derrotado por poucos votos, nos enchemos de esperança de que ele pudesse sair vitorioso em 2016 e, finalmente, pudesse inserir Rio de Contas dentro do novo espírito democrático que se estendia sobre a nação, incluindo os trabalhadores rurais e urbanos, as mulheres, os negros, os gays e todos os segmentos historicamente humilhados e explorados da nossa sociedade, em um processo de resgate da cidadania e aumento do poder de consumo, tornando-os cidadãos de fato e não apenas de direito.

Infelizmente, no entanto, deu-se o oposto. Já nas eleições de 2014 Dr. Cristiano aliou-se ao que havia de mais reacionário na política baiana, apoiando candidatos do DEM, do PSDB e da banda podre do PMDB, como Geddel Vieira, Paulo Souto, Claudio Cajado e Lúcio Vieira Lima.

Naquele momento minha opinião a respeito das verdadeiras convicções políticas de Dr. Cristiano começou a ficar abalada. Mesmo assim continuei dando-lhe um voto de confiança, pensando que talvez na política municipal as coisas fossem diferentes. Mas agora, diante do quadro trágico de retrocesso político que se apresenta no país, não posso admitir sequer pensar em votar num candidato que se filia a um partido como o DEM, partido originário da ditadura e que sustentou durante décadas os governos autoritários e anti-populares de Antônio Carlos Magalhães e seus seguidores na Bahia.

A filiação de Dr. Cristiano ao DEM retira-lhe a máscara de cordeiro e mostra o lobo escondido por trás da sua candura. Será um novo coronel. É candidato a ser um novo Dr. Pedro, coronelzinho que tiranizou durante décadas esse pequeno município. Não significa nenhuma renovação, mas ao contrário, a volta de uma política que já tinha sido superada.

Por outro lado também não voto, e jamais votaria, no grupo que está no poder, cujo prefeito não passa de um fantoche, um mamulengo, operado pelos velhos interesses que sempre estiveram no poder nesta cidade.

Na verdade, nesta disputa eleitoral, ninguém me representa, e lamento que meu partido, o PCdoB, ou o velho PCB do qual sou originário, apóie esse grupo. Comunista sim, com muito orgulho, mas comunista convertido à democracia e a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual sempre procurei seguir, com todas as minhas falhas de ser humano, como praticante do espiritismo.

Comunista sim, como o próprio Jesus, que saiu em defesa dos pobres e aflitos deste mundo, ao denunciar e expulsar os vendilhões do templo.

De todos os candidatos em Rio de Contas, só um me orgulha e faz justiça ao meu voto, que lhe darei satisfeito e convicto; o meu amigo Jorge Sá, que tenho certeza trará uma grande contribuição à Câmara de Vereadores, tirando-a do limbo vergonhoso em que se encontra, como casa de barganha de favores e transações escusas, para o patamar de verdadeira casa do povo, representando com dignidade, não apenas o povo desta cidade mas o velho partido de lutas e glórias históricas.

Muitos me disseram para me calar e não fazer essa declaração do voto, alegando que eu criaria desnecessariamente uma inimizade, perdendo a oportunidade de desfrutar da amizade de um futuro prefeito, mas minha consciência fala mais alto e, mais uma vez me coloco contra os poderosos, sem transigir com os meus valores.

Peço desculpas aos que discordam de mim, inclusive aos amigos que apóiam Dr. Cristiano, mas tinha que fazê-lo para dormir em paz com meus princípios e ao próprio Dr. Cristiano, reitero minha eterna gratidão, lamentando que tenhamos que seguir caminhos opostos na política.