Sertão Hoje

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Colunistas

Fabiano Cotrim

É professor e advogado do escritório "Cotrim, Cunha & Freire, Advogados Associados", em Caetité. Membro da Academia Caetiteense de Letras (cadeira Luís Cotrim), Mano, como é conhecido, gosta mesmo é de escrever poesias, mas, desde os tempos de Maurício Lima, então batucando na sua velha Olivetti Lettera 32, colabora com o Jornal Tribuna do Sertão, sempre nos mandando crônicas.

ATOALHADO CREME...

Amigos, amigas, principalmente amigos, eis que logo de manhã me vi em apuros por conta de uma deficiência que julgo ser própria de nós, homens, ou que pelo menos é minha. A patroa pediu que eu lhe alcançasse, vejam só, um pano atoalhado creme! Não dei o braço a torcer de imediato, não, que homem que é homem não treme diante de um simples pano atoalhado creme. Mas confesso que sofri para tentar identificar essa cor incrivelmente difícil de se distinguir, e falhei. Pode um negócio desses? Atoalhado creme... haviam outros panos pendurados no varal, de diversas cores, mas ela queria aquele, o impossível, o atoalhado creme, e não houve jeito para separar o joio do trigo, o atoalhado creme de um cor de abóbora, outro amarelinho, uns sem cor definida e nem nada...

Trago o assunto para o centro das atenções apenas para dividir com o amigo a angústia de não acertar coisas simples assim, para ver se apenas eu é quem não consegue, ou se o amigo que me lê também padece desse mal. E aproveitando, pergunto: o amigo consegue localizar na bolsa da sua mulher, de qualquer mulher, um objeto que ela lhe pede. Pega a chave lá pra mim, amor, está no canto direito da minha bolsa... o amigo, se instado a tal coisa, consegue dar conta da missão? Consegue? Então estou sozinho em minha deficiência? Pois que seja, eu não consigo. Nunca conseguí, nunca conseguirei pelo visto. Afinal, décadas de convivência já se passaram, outras virão se Deus quiser, e nada. A bolsa de uma mulher mais parece um poço sem fundo, um buraco negro, uma coisa misteriosa. Se ela própria vai pegar a tal chave é rapidinho, mas se eu tento, o fracasso é certo...

São poderes femininos esses de saber em qual cantinho da vastidão de uma bolsa fica uma chave, uma caneta, mas principalmente o dom, a sabedoria, a ciência de definir e identificar uma incrível e sensacional paleta de cores. Já as ouvi falar sobre objetos que são salmão clarinho, rosa bebê, pêssego alaranjado e outras esquisitices... Dá uma certa inveja, confesso, posto que eu mal, mal conheço as cores básicas e mais algumas que me ensinaram ainda na escola primária, e o máximo de cor nova que distingo bem é uma tal de magenta...

Mas atoalhado creme, essa foi demais! Ou por acaso o amigo que agora rí da minha incapacidade saberia dizer o que é isto? Saberia? Então que seja, o amigo é muito mais sabido do que eu, muito mais preparado para servir a uma dama, fazer o quê... Mas não pensem que não resolvi a parada, que deixei a minha amada sem o pano que me solicitou, não. Ela pede e eu dou um jeito de servi-la, que o amor é muito e sempre lindo. Adotei o método que sempre me salva: peguei todos os panos do varal e mostrei a ela que, já ciente da minha deficiência, foi logo dizendo: o atoalhado creme é este aqui, mas já que você pegou todos e eles estão secos, dobre-os e guarde-os no canto esquerdo daquela gavetinha onde fica aquele verde acinzentado e o azul turquesa...