Sertão Hoje

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Colunistas

Fabiano Cotrim

É professor e advogado do escritório "Cotrim, Cunha & Freire, Advogados Associados", em Caetité. Membro da Academia Caetiteense de Letras (cadeira Luís Cotrim), Mano, como é conhecido, gosta mesmo é de escrever poesias, mas, desde os tempos de Maurício Lima, então batucando na sua velha Olivetti Lettera 32, colabora com o Jornal Tribuna do Sertão, sempre nos mandando crônicas.

Um tiquim só...

Vamos lá, meu povo, admitamos, muitas vezes dizemos de um jeito diverso aquilo que de fato se pretendia dizer. É um jeito brasileiro de ser, mas muito mais evidente por aqui nesses vastos sertões da Bahia, já que não somos dados a ferir, ofender ninguém, nem muito menos melindrar as almas já tão sofridas que sempre habitaram esses torrões quase sempre secos e quentes.

Pois bem, nessa toada, nessa intenção benfazeja de deixar todo mundo bem e ninguém chateado conosco, desenvolvemos um modo próprio e manhoso de dizer mentiras que parecem verdades, ou verdades que parecem mentiras, como queiram.

Assunte e veja um camarada sertanejo dizendo ao outro que esperasse só um tiquinho que ele logo vai fazer isto ou aquilo que lhe foi pedido. Para entender melhor é imaginar que você queira, por exemplo, contratar este ou aquele serviço e chame pelo telefone o fornecedor, e lhe peça pra mandar um orçamento. Vai demorar? Você perguntaria, necessitado que estava dos préstimos alheios. A resposta é quase sempre a mesma. Demora só um tiquim, já, já, lhe respondo. Vai demorar. Pode ter certeza. Vai demorar.

Não é nada, não é nada, creio que deve ter sido um dos nossos que descobriu a tal teoria da relatividade e depois o Einstein completou o trabalho. Por aqui, o tempo sempre foi relativo.” Já, já”, por exemplo, nem sempre quer dizer que a coisa vai se dar daí a um pouco. Empreste a um amigo alguns cobres, depois lhe cobre, e vai ouvir que já, já, ele lhe paga. Se assim for, vai demorar...

E quando a pessoa promete que tudo vai durar só uns “dez minutinhos”? Pensa que o relógio e sua precisão vai marcar esse intervalo de tempo? Depende. Dez minutinhos pode significar uma eternidade... ou não. É relativo, tão relativo quanto a pessoa dizer que umas dez horas passa na sua casa. Repare, ele não disse dez horas, disse umas dez horas. E esse ‘umas’ aí é sinal claro de que vai demorar...

Esse é o nosso jeito de ser e contra essa nossa natureza ninguém pode. É aceitar e curtir mais essa peculiaridade que nos marca como gente, nos dá o tom da identidade. Não é que mentimos quando o assunto é tempo, compromissos envolvendo o tempo, é que somos muito sabidos e faz é tempo que sabemos ser o tempo a mais relativa das

forças, e que é possível fazê-lo esperar, passar mais lentamente, ainda que seja só um tiquim...