Sertão Hoje

Sertão Hoje

Colunistas

Fabiano Cotrim

É professor e advogado do escritório "Cotrim, Cunha & Freire, Advogados Associados", em Caetité. Membro da Academia Caetiteense de Letras (cadeira Luís Cotrim), Mano, como é conhecido, gosta mesmo é de escrever poesias, mas, desde os tempos de Maurício Lima, então batucando na sua velha Olivetti Lettera 32, colabora com o Jornal Tribuna do Sertão, sempre nos mandando crônicas.

O jeito certo de comer...

Parte 2 – Pequi

Escolhi o pequi para abrir esta verdadeira epopeia histórico gastronômica por ser esse frutinho dos gerais um daqueles casos em que o óbvio salta das mãos, da boca do freguês que desafiá-lo na hora de se comer, com delícias e prazeres, os pequis do mundo todo. O jeito certo de comer pequi, primeiro não é comer, mas roer, segundo é que pequi se rói segurando os frutos cozidos com as mãos.

É coisa simples e toda criança bem criada aprende antes de sair do colo da mãe, mas tem estrangeiro desavisado que tenta garfo e faca, colher e só depois se rende. E o pior são os da terra, que por falsa chiqueza também comete tais sacrilégios, no caso deles, imperdoáveis.

Primeiro passo dado, pequi posto firmemente entre os dedos, entra a técnica secular de roê-lo tendo como base os dentes inferiores. Note bem, não são os dentes que devem ir ao encontro do pequi, mas sim o contrário, o pequi deve ser passado nos dentes. Como se você estivesse ralando um pedaço de queijo, bem suavemente, para não cortar os dedos no ralo. No caso do pequi, se faltar suavidade aparecerão os finíssimos espinhos escondidos no seu interior e que se atingirem a língua é um deus nos acuda.

Existem varrições infinitas de modos para o feitio do pequi, mas um só para a sua fruição: roendo-o. É claro que um pequi que venha escaldado em uma galinhada de responsa merecerá por parte do comensal maiores cuidados. Estará pegando fogo na hora em que for servido, e ai entram a farinha e o sopro. Faça assim: Amontoe um punhado generoso de farinha no canto do prato. Sirva-se logo de uns três ou quatro pequis bem carnudos. Despeje os seus pequis em cima desse gracioso monte. Revolva-os, envolva-os. Capa protetora feita, pegue com a pontinha dos dedos, assopre com graça e leveza e inicie a roída, de leve. Aberta a primeira clareira na polpa amarela e doce, não pare. Pode sugar o caldo da galinha que se incorpora no fruto, sem fazer barulho, mas sempre demonstrando a sua gratidão e honra por estar participando de um banquete dos deuses. Gemer de gosto, em mesa legitimamente sertaneja, é permitido...