Sertão Hoje

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Vitor Hugo Lima da Silva

Vitor Hugo Lima da Silva é médico, clínico geral, formado em 2001 pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente, reside em Ituaçu, onde trabalha como médico concursado no Programa Saúde da Família (PSF) e também em uma clínica particular (Fisioclem), em sociedade com sua esposa.

As comunicações virtuais e a perda de responsabilidades nas pequenas coisas da vida cotidiana

Quem parar para analisar as atitudes da sociedade como um todo e dos indivíduos que a forma, verá que algo novo, diferente, estranho e desalentador está acontecendo. Eu não saberia dizer com certeza, demonstrar e provar através de estudos sociológicos ou antropológicos como referência, mas é a sensação que tenho ao também participar da vida virtual, através das relações humanas proporcionadas pela internet.

Quem ainda não recebeu uma mensagem, um torpedo ou um ‘whatsapp’, onde a pessoa do outro lado diz que não vai poder comparecer a algum compromisso? Claro que muitas vezes realmente a pessoa, por motivo de forças maiores, não poderá mesmo honrar o combinado; não estou aqui analisando estes casos, mas sim os casos que, dada a freqüência com que ocorrem, me dão a sensação de conversa fiada de quem não consegue apenas dizer “não vou mais, deixa pra outro dia”, ao invés do manjado “tive um imprevisto, não vou poder ir” ou “estou com dor de cabeça e não comparecerei” ou ainda “vou adiar, pois aconteceu algo que me impede de ir”.

Com base na freqüência com que isto acontece, muitas vezes me sinto com uma vida muito amena e pacata e tenho até inveja destas pessoas cujas vidas são tão movimentadas, já que na minha não vejo tantos imprevistos, compromissos inadiáveis de última hora, coisas que me impossibilitam de seguir em frente ou até mesmo diarréias ou dores de cabeça e febres incapacitantes. Paro e penso: onde está a origem desta incômoda amenidade de minha vida tão pacata!? E quanto mais penso menos acredito que seja minha vida a causa desta assimetria de movimentos. Percebo que minha vida é, na média, como a de todos. Talvez ainda menos monótona. O que está acontecendo na verdade é outra coisa, que tem mais a ver com a psicologia inserida no fenômeno da vida virtual recente. Vejo que as pessoas escondidas por detrás das telas de seus aparelhos se sentem mais encorajadas a faltar aos compromissos, pois as justificativas ali escritas e enviadas não têm tons de voz, não tem olhar e nem atitudes físicas que, junto com a informação dita, ofereçam ao leitor algum indício da realidade do que está acontecendo, a veracidade ou gravidade do fato exposto. É muito mais fácil para as pessoas se justificarem mais ou menos como coloquei acima que apenas escrevendo algo como “não vou mais, deixa pra outro dia”, “desisti de última hora, desculpe”, “me atrasei nos preparativos, não vou poder comparecer”, “ainda estou com sono, não vou poder ir”, pois nestes últimos casos as pessoas tomam para si responsabilidades, assumem que as causas dos atrasos ou adiamentos estão nelas próprias, e isto é forte, pesa no campo da responsabilidade. É mais confortável para as pessoas enviarem mensagens genéricas e desprovidas de bases reais, já que estão escondidas atrás de seus aparelhos eletrônicos e não serão questionadas, que assumirem que são seres humanos e estão passíveis de se desinteressar por algo, ainda que em cima da hora, pois hoje a virtualidade dos fatos e das personalidades são quem ditam as regras do viver moderno. Frente ao exposto, fica uma pergunta: São os compromissos que estão ficando cada vez menos importantes na vida das pessoas, dada a rotina individualista que cada um leva com seus tablets, smarthphone e computadores, ou são as próprias pessoas que estão se mostrando mais, ainda que inconscientemente, escondidas do outro lado de suas contas de conexão banda larga?