Sertão Hoje

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Vitor Hugo Lima da Silva

Vitor Hugo Lima da Silva é médico, clínico geral, formado em 2001 pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente, reside em Ituaçu, onde trabalha como médico concursado no Programa Saúde da Família (PSF) e também em uma clínica particular (Fisioclem), em sociedade com sua esposa.

Redes Sociais – Inibidoras do Desenvolvimento Pleno da Humanidade

Nos dias de hoje as pessoas compartilham bons momentos das suas vidas nas redes sociais. Utilizam o status do Whatsapp, o story do Instagram ou o Facebook para avisarem para todo mundo que suas vidas estão muito boas, que sua vida vai bem, obrigado; e até que suas comidas estão muito apetitosas! Talvez de modo intencional não seja este o recado a ser passado. Talvez seja apenas a força do hábito ter de compartilhar seus momentos com todos, ou quase todos, os seus contatos. Olhando por um ângulo mais racional e frio, estas postagens nada mais são que recados dados, avisando às pessoas que suas vidas não são um mar de tédio. Avisando que suas vidas estão como a de todos, afinal todos também fazem isto nas redes. Aí que mora o perigo: todas as pessoas postam basicamente amenidades e bons momentos, fazendo com que todos os outros, ainda que de modo inconsciente, ou não, façam a comparação com as suas próprias vidas e cheguem à conclusão, também de modo inconsciente, que suas próprias vidas, estas sim, são um tédio, tendo em vista as postagens do resto da humanidade (ou ao menos das pessoas que vivem na mesma comunidade que ela). Essas comparações não são por maldade, inveja ou qualquer outro adjetivo ruim. Não! Estas comparações são apenas fruto da mente humana, que quer ser apenas igual aos seus companheiros e colegas sociais. 

É sabido que a vida de todo mundo tem altos e baixos. É óbvio que a grande maioria das pessoas não vive em mar de rosas, mas sim em uma vida com turbilhões de sentimentos e de momentos bons e ruins. Sabendo disto e analisando o fato de as pessoas postarem nas suas redes sociais basicamente coisas boas que ocorreram com suas vidas ou com a dos que as rodeiam, cria-se um clima de sentimento de desolação e ansiedade para todos nas redes sociais, pois todos estão ao mesmo tempo vendo apenas bons momentos nas redes das outras pessoas. Só que dentro de sua mente ou debaixo de sua pele só ela está e, inevitavelmente, as comparações começam a surgir lá nas prateleiras do inconsciente. Isto acaba gerando frustrações e começam a brotar sentimentos ruins nas pessoas, nos espectadores da "vidinha perfeita" dos outros. Então estas mesmas pessoas, de modo reativo e inconsciente, passam a postar também bons momentos, como que numa tentativa de serem iguais aos outros e terem também momentos de prazer. Assim, estes sentimentos ficam pairando na rede, à espreita de novas postagens, perpetuando o ciclo. As curtidas, os números de visualizações e os likes são as ferramentas que as redes usam para transformar uma simples postagem inocente em algo que leva a ansiedade e interpretações, por vezes errôneas, do motivo destas postagens.
Não tenho redes sociais nem posto nada sobre minha vida. Vivo a la anos 80 e 90, guardando boas experiências apenas dentro da minha cachola, transformando bons momentos em bytes neurológicos, guardando as informações, boas ou más, apenas em minhas lembranças. Assim vou moldando minha personalidade, vou lapidando minhas perspectivas futuras com base no meu presente e passado.

Mas eu precisava ter algo mais concreto em mãos para escrever este artigo. Resolvi utilizar rede social por um mês. Pensei no Instagram, mas não tive coragem. Pensei no Facebook, mas também não me senti confortável me imaginando com minha figura, meu rosto, estampado lá, pra todos verem. Acabei escolhendo o status do Whatsapp. Ainda assim não me senti à vontade para postar coisas da minha vida por um mês e todos estarem vendo. Foi aí que tive a ideia de selecionar as pessoas que poderiam ver minhas postagens. Escolhi todas que me veio à memória como fazendo parte da minha vida real diária, familiar ou de trabalho. Foram aproximadamente 45 pessoas. O que percebi, nos 25 dias que postei coisas no status, foi que existem os fregueses de sempre nas visualizações, existem os comentaristas de publicações e existem os que nunca visualizam status (ou visualizam e estamos bloqueados para ver sua espiada). Analisei bastante meus sentimentos, utilizando como termostato meu sentimento normal antes de tomar esta iniciativa de publicar. E posso dizer, com a certeza de quem experimentou, que realmente ficamos ansiosos quando publicamos algo na rede. Esta ansiedade vem basicamente de dois pontos: querer ver a quantidade de visualização e querer ver quem visualizou ou quem comentou a(s) postagem(ens). Após esta experiência, a única coisa que pude tirar de concreto foi que as pessoas estão vivendo menos a experiência do sentir, dos cinco sentidos, substituindo-o pela experiência do postar e ser curtido, com a ilusão de que isto vai de algum modo massagear seu ego. Só que na realidade isto não ocorre e não há vantagens práticas em redes sociais. Nem as pseudovantagens de estar em contato mais rápido com as pessoas que realmente irão influenciar em nossas vidas, como um orientador de doutorado, um fornecedor de uma empresa, que pode facilmente nos falar e mandar fotos ou arquivos para análises e posteriores fechamento de negócios, nem vantagens como estas são realmente vantagens, pois dá para ter todos estes canais de comunicação através da tecnologia que temos hoje em dia, sem precisar de redes sociais, de banalização de cotidianos. E se assim fosse, se a falta destas redes fosse travar o desenvolvimento humano,como explicar então o fato de a humanidade ter chegado no grau de desenvolvimento em que está (sem redes sociais)?O que tem de vantagem prática para uma pessoa e para o resto de sua comunidade e, quiçá, da humanidade, a publicação de seu kibe cru com molho rosé ou sua selfie com o Cristo Redentor ao fundo? Acredito que nenhuma, a não ser a massagem inconsciente do seu ego e seu ligeiro bem estar, após momentos de ansiedade por ser bombardeado por fotos de “todo mundo num mar de rosas”.

Antigamente, pessoas entravam e saiam de nossas vidas, deixando ou não lições e lembranças, as quais poderiam ser evocadas num momento de ócio ou de reencontro real num futuro. Hoje as pessoas ficam presas às nossas vidas para sempre, através das redes sociais, estando a um clique de nossas vidas. Acredito que temos uma quantidade limitada de sentimentos para doar a outros seres humanos. Com pessoas só entrando nas nossas vidas, estes sentimentos ficam diluídos para muitos, cabendo uma fração pequena a cada um. Aí entendemos o porquê dos relacionamentos e sentimentos estarem cada vez mais superficiais hoje em dia. Esta facilidade de encontros virtuais via rede social, que bombardeiam os outros paulatinamente com o nosso cotidiano, está jogando no lixo o tão bom momento dos reencontros, quando iríamos falar e ouvir pessoas sobre acontecimentos ocorridos nos lapsos de tempo de afastamento. Hoje encontramos uma irmã ou um amigo que mora no estrangeiro, após anos de afastamento, mas pouco se tem a dizer no momento da chegada, pois sabemos já de antemão que semana passada ela torceu o tornozelo, que semestre passado sua filha foi passear com a turma do colégio num lugar paradisíaco, que ele escalou aquela montanha com os tibetanos, e assim por diante. O que contar, o que dizer com brilho nos olhos e suspiros nos momentos de reencontro? Nada, pois tudo já foi ‘exposto’, via rede social.

Nem a nível comercial as redes estão ajudando a humanidade a progredir, ao contrário do que parece, já que ficou mais fácil o marketing direto, fazendo com que empresas pequenas tenham hoje um alcance que antes era inconcebível. Só que estas empresas, sem generalizar, muitas delas era melhor nem estar existindo, tamanha a insignificância perante a sociedade em que funciona, pois neste vácuo da propaganda fácil e enganosa via fotos e frases de efeito, poderia estar nascendo empresas realmente engajadas em oferecer à sociedade e à humanidade produtos ou serviços realmente de qualidade e lapidados pela própria sociedade, através das regras de ciência econômica e do “pagar pela qualidade” e não do hoje “pagar pelo que está evidente”. Além disto, empresas que realmente tenham knowhow a oferecer à sociedade deixam de conquistar mais espaços para oferecer algo melhor à humanidade, perdendo espaço para nulidades que aqui e ali aparecem, fruto dos lampejos das redes sociais.