Sertão Hoje

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Vitor Hugo Lima da Silva

Vitor Hugo Lima da Silva é médico, clínico geral, formado em 2001 pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente, reside em Ituaçu, onde trabalha como médico concursado no Programa Saúde da Família (PSF) e também em uma clínica particular (Fisioclem), em sociedade com sua esposa.

A (des)meritocracia num país governado por populistas

Estive pensando com meus botões, numa madrugada calorenta deste nosso sertão baiano, sobre a ausência de meritocracia no atual governo do Brasil. Estas divagações me levaram a analisar três pontos que fazem parte da política de governo do Partido dos Trabalhadores:  

1- Cotas Raciais para ingresso em universidades, que a princípio utiliza concurso (no Brasil se chama vestibular),  desvirtua o real valor do mérito. Se existe um lugar que deveria ter pessoas que lá conseguiram estar por mérito, este lugar se chama universidade. Mas não. O governo encara universidade apenas (e não mas também)como um meio de adquirir subsistência e reparar danos históricos, jogando no lixo todo o princípio universal e histórico do significado de UNIVERSIDADE; Tivesse o governo selecionado algumas universidades que sabidamente estão ali apenas para formar “ganhadores de dinheiro e ascensão social ao se formar”, em nada contribuindo com progresso científico através de produção acadêmica, eu não diria nada! Como a intenção é outra e soa como gesto nobre e altruísta, todos concordam e aplaudem a intenção do governo. Para piorar, indiretamente o governo deixa de promover estudos sérios e técnicos para melhorar o ensino fundamental, que é o verdadeiro formador de cidadãos capazes de ter mérito no futuro.  

2: Bolsa Família, cujo programa paga com o dinheiro do cidadão brasileiro a muitas famílias as quais já ganham mais que o suficiente para viver – não estou dizendo “sobreviver”.  Este programa é medíocre apenas na sua aplicação prática, pois o princípio teórico realmente é bonito e inteligente na forma como bolaram para retirar pessoas da extrema pobreza. Mas a constatação prática Brasil afora é outra. Óbvio que os beneficiários não têm culpa; eles estão fazendo o seu papel, já que se encaixam no perfil “permitido” pelo governo. A culpa é apenas do governo, que se utiliza de meios também altruísticos para angariar simpatias, tanto da população culta, que justamente por ser culta entende muito bem a parte teórica e aplaude, quanto da população menos favorecida historicamente pelo acesso à informação. Como também por questões históricas esta população é a que estatisticamente mais é beneficiada pelo programa, o governo acaba alcançando popularidade fazendo pseudotecnicismo no teatro onde, por incrível que pareça, os espectadores são de todas as classes sociais.

3: Ciência Sem Fronteiras também é um programa interessante, pois os universitários brasileiros estão indo cursar um ano em universidades estrangeiras, sob a desculpa de que o Brasil receberá dividendos científicos no retorno deste pessoal. Mas na prática o que vemos é que eles estão indo fazer um intercâmbio pessoal bancado pelo governo (e não pelos seus pais ou familiares, o que seria o correto). E na bagagem dos conhecimentos adquiridos lá fora, eles trazem principalmente a experiência de vida pessoal e o aperfeiçoamento de outro idioma. Muito bom, claro, para o brasileiro que está voltando do seu turismo, digo, ciência sem fronteiras. Mas a nação em nada é beneficiada com isto. Eu, você, em nada nos beneficiaremos com um estudante de medicina que vá fazer a matéria de farmacologia, embriologia, patologia ou qualquer uma outra da área básica, em Harvard ou Cambridge. Não trarão nem mesmo uma melhoria na técnica profissional que estudam – no caso, medicina -, pois aulas teóricas apenas não levam a treinamento prático de uma profissão. Ou será que alguém acha que este aluno no futuro será um profissional melhor que os que aqui ficaram, somente por que estudaram  os mesmos assuntos ouvindo um professor americano ou inglês dar as suas aulas teóricas. Óbvio que não. O aluno que vai para fora e fica apenas assistindo a aulas, sentado numa cadeira, como é a maioria dos casos, se não a totalidade, sem estar dentro de algum projeto científico na universidade escolhida, estará apenas adquirindo conhecimentos que estão em livros – os mesmos livros que são traduzidos e utilizados pelas universidades brasileiras. E não me venham com a balela de que eles estarão assistindo aulas com professores que muitas vezes concorreram ao Nobel, ou que são estrelas internacionais do mundo acadêmico, etc. Isto não quer dizer nada. Se fosse um pós-graduando envolvido em alguma pesquisa com este mesmo professor-astro, aí sim, os dividendos realmente poderiam vir junto com o aluno, mas mesmo assim se cá a universidade de origem tivesse alguma estrutura para dar continuidade prática no tal projeto. Eu pessoalmente fui aluno de dois professores-astros, um deles inclusive autor de um TRATADO DE FARMACOLOGIA, livro de duas mil e tantas páginas, adotado por várias faculdades de medicina em todo o mundo, o outro pesquisador de renome internacional na área de reprodução humana, e não vi diferença na minha formação, pois as aulas teóricas que eles davam eram as mesmas que qualquer outro daria e cujos assuntos estavam nos livros. Se analisarmos a opinião, os pareceres, dos ‘tutores’ que recebem estes universitários lá fora, nas universidades, aí realmente não há o que se discutir neste assunto. Neste caso, assim como nos outros, os beneficiários também não são os culpados, pois qualquer pai ou mãe quer o melhor para seus filhos. E, ainda que ignorando a verdadeira face de um programa desse, todo pai sabe que o filho irá colher apenas bons frutos indo passar uma temporada lá no estrangeiro; melhor ainda se patrocinado pelo governo. E quem é o culpado então?  O culpado é novamente apenas o governo, que não tem projeto descente no lidar com ciência. Chega a ser paradoxal lidar com ciência e não haver tecnicismo e protocolos embasados em estudos; coisas de Brasil governado por populistas que querem se manter no poder! E de governo que não valoriza questões técnicas, justamente por não ter este tipo de perfil. Ou será que alguém acha que realmente é preciso mandar milhares e milhares de estudantes em fase de graduação e que muitas vezes nem entraram ainda na parte profissionalizante do curso, para que o país se insira no meio científico internacional e obtenha relação mútua com as instituições de nível internacional, como está escrito no objetivo do programa? O custo-benefício não compensa, até mesmo porque o benefício não existe. E existem outros meios para se alcançar isto, como, por exemplo, a maior autonomia das universidades e o não sucateamento destas.

Resumindo: o governo trabalha em várias frentes de batalha para conseguir a popularidade. No primeiro caso (cotas), popularidade dos jovens que sonham em entrar numa universidade, e dos seus pais, ambos maltratados pela história remota e recente do país. No segundo caso, (bolsa família), popularidade dos beneficiários que realmente necessitam do benefício, popularidade dos beneficiários que não necessitam deste benefício e que estou para dizer são a maioria (dada a observação na vida real, cotidiana e nos relatos de colegas que também trabalham com esta população específica, como eu) e não receberiam tal benefício se a formalização do mercado de trabalho fosse um projeto de governo sério no país, e por fim popularidade dos cultos que entendem ou dizem entender bem de teorias complexas acerca de um tudo. E no terceiro caso (ciência sem fronteiras), popularidade de jovens que não foram tão maltratados pela história recente ou remota do país, bem como de seus pais, que estão indo ao aeroporto se despedir dos filhotes, com a sensação de que aquele filho é um bem-aventurado no meio acadêmico, não percebendo que ele é apenas mais um universitário que inflará as estatísticas em prol do governo, sem nada contribuir para a melhoria da ciência da nação. Salvo as exceções.