Sertão Hoje

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Colunistas

Dário Teixeira Cotrim

Membro da Academia Montes-clarense de Letras e dos Institutos Histórico e Geográfico de Montes Claros (MG), de Feira de Santana (BA) e da Bahia. Dário também é sócio correspondente da Academia Caetiteense de Letras.

A Casa da Cultura

A leitura é algo que incomoda muita gente, não obstante os que muitos não mais se importe com ela. Hoje as pessoas não leem por vários motivos. A televisão, por exemplo, é um de seus piores inimigos, isso sem falar na força avassaladora da Internet, quando mal utilizada. Aliás, o que não faltam agora são motivos para não ler nada. E o mais agravante é que ninguém tem tempo para a leitura. Um pensador norte-americano chamado Jim Rohn disse certa vez que: “Tenho pena das pessoas que têm um restaurante favorito, mas não tem um autor ou livro favorito. Pois elas sabem onde alimentar seu corpo, mas matam de fome sua alma”. A partir desta colocação de Jim Rohn, imaginem vocês, caros e raros leitores, como está sentindo, neste momento, este neófito escriba do Gentio: frustrado! É claro. Sinto-me frustrado e deprimido, haja vista os meus dezenove livros escritos, sendo onze deles já publicados e divulgados em mídia.

Comumente os presumíveis leitores são hoje indivíduos pacatos que vivem num isolamento necessário. Eles precisam de silêncio e de muita concentração. Acima de tudo, eles precisam de paz de espírito para absorver as essências do belo, que por certo, nunca destoariam das sutilezas contidas nos livros em que estão lendo. Há, todavia, leitores para todos os gostos, mesmo sabendo nós que são eles em números bastante reduzidos.

Mas, encontrar-se em lugares dedicados integralmente à leitura não é, tão somente, um privilégio para os leitores, como também é uma evasiva aos estudos literários. Isso, também, acontece com os pesquisadores do tempo. A qualquer tempo, ou a qualquer hora.

Nesse sentido, eu tive o aprazimento de visitar o vetusto casarão do Instituto Geográfico e Histórico do Estado da Bahia, na mística cidade de São Salvador. Defrontei-me ali, completamente encantado com os seus magníficos salões. Com as suas estantes luxuosas em que guardam as mais raras obras literárias. Com as escrivaninhas todas elas abarrotadas de preciosidades obras bibliográficas e com os retratos dos grandes vultos de nossa história que estavam colocados em pontos estratégicos do edifício. Nada, nada me deteve. Nesta hora fui direto a uma escrivaninha em que trabalhava o velho zelador da casa quando lhe solicitei alguns exemplares das Revistas editadas pela entidade, onde eu deveria pesquisar fatos históricos sobre a trajetória da cidade de Montes Claros. Confesso que garimpei pouquíssima coisa, mas o suficiente para melhorar o meu trabalho de pesquisa. Longe de esmorecer, em virtude às dificuldades, aliás dificuldades essas inerentes às pesquisas, confesso que foram os momentos mais sublimes, porque ali eu sentia a presença espiritual do poeta Castro Alves e do jurista Rui Barbosa. Numa mesa, ao lado, eu visualizava a figura ímpar do historiador baiano Teodoro Sampaio. Por que não dizer também da presença do frei Vicente do Salvador, de J. O. R. Miliet de Saint’Adolfhe, de João Guimarães Rosa, de Auguste de Saint-Hilárie, de Aires de Casal, de Simeão Ribeiro Pires, de Jean de Lery, de Helena Lima Santos, de João Emanuel Pohl, de João Capistrano de Abreu, de João Gumes, de Felisbelo Freire e, pasmem senhores, do saudoso historiador Domingos Antônio Teixeira. Então podemos dizer o que disse o professor Wanderlino Arruda prefaciando o nosso livro História Primitiva de Montes Claros, que “... o homem se impõe como quase dono da eternidade. Lendo, somos conterrâneos de Abrahão, de Isac e de Jacó. Lendo, vivemos e convivemos com Sócrates, Vergílio, Dante, Machado de Assis”. Bem inspirado nestes princípios, confesso agradecido, pois estive vivendo de sonhos quiméricos, com a sua divina pureza e com o sabor do seu doce saber.

Com legitimo orgulho saí dali, levando na minha bagagem um exemplo de sabedoria, e no coração o vivo desejo de propô-lo, quando assim conviesse, aos letrados de minha terra. E o que ora faço, em ocasião que não pudera ser mais bela nem mais solene que esta, só o tempo saberá. Portanto, imitemos sem constrangimentos, caros confrades das letras e das artes, os grandes próceres da nossa cultura e da história de nossa terra.