Sertão Hoje

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Colunistas

Dário Teixeira Cotrim

Membro da Academia Montes-clarense de Letras e dos Institutos Histórico e Geográfico de Montes Claros (MG), de Feira de Santana (BA) e da Bahia. Dário também é sócio correspondente da Academia Caetiteense de Letras.

Um prolóquio para minha Fada-Madrinha

Nunca me senti tão triste diante de tamanha saudade da minha fada-madrinha, a jovem-mucama Eulina que ao dar a luz perdeu dos olhos o brilho da vida. Mas, a perda neste desdém de um riso, que ora esvoaça e suporta a tanta desgraça, é um lenitivo doloroso para o coração de uma mãe que sofre. Suprema é a vontade divina. Supremo é o amor de mãe, aquela que sofre mais e na mais profunda agonia da morte. Em outras épocas, de tanto horror e espanto, quando relembramos ainda aquelas cenas vandálicas dos soldados herodianos, arrancando dos seios ainda quentes das mães os filhos pequeninos, cortando-os a espada, jogando-os sem vida e em pedaços sobre o chão ensanguentado, o mundo se redimia do sentimento de profundo ódio. Mas aqui não é o caso. Aqui, prezado leitor, é a voz dos sinos anunciando aos céus o desespero de uma santíssima que tenta salvar o filho doando-lhe a vida pela morte. Um presente de Natal!

Em outras circunstâncias, ainda quando menina-moça, ela era aquela que sempre se engalanava nas quadras da vida com os entretenimentos das cantigas de roda nas testadas das casas grandes da antiga vila de Nossa Senhora do Rosário do Gentio. O seu belíssimo sorriso, enigmático, o trejeito afeito de menina-moça e a grandeza de seu coração faziam de minha fada-madrinha a pessoa mais querida e mais amada do lugar. Isto já assim vai de muito, mas noutro tempo havia muito mais alegria nas brincadeiras de roda: “Roseira, dá-me uma rosa/ craveiro, dá-me um botão/ Eulina, dá-me um abraço/ que eu te dou meu coração...”.

Eulina era uma menina-moça de origem humilde. Humílima mesmo. Em toda a sua vida até a morte, ela sempre viveu e conviveu com os preconceitos de uma sociedade vil e perversa. A mãe-preta Maçú sabia de tudo isso. Não só sabia como desconhecia saber das inquietações advindas dos corações machucados de seu povo. É por essa razão que a família admiravaa sua posição firme e grandiosa em resguardar a dignidade dos filhos. Eulina: uma doçura de filha com um alindado riso, enigmático e belo! Na grandeza de sua alma e na vontade de ser feliz, ela conquistava a confiança e a simpatia de todas as pessoas em sua volta. Faço aqui uma ligeira digressão para incluir, de minha verve poética, um soneto elaborado em homenagem a essa jovem-mucama de encantos mil.

SONETO

Não basta de saudade – a vida em flores!
Se a tua ausência dentro de minh’alma
Existe. Ainda, na mais doce calma,
Pelos cantos das mágoas e das dores.

Não basta de saudade – meus amores!
Se, na lembrança nossa o tempo espalma,
Há cânticos de fé, de palma em palma,
E rabiscos num céu de várias cores.

Preciosa lembrança – de tua prece...
Uma menina-moça sorridente!
Uma mucama linda que padece.

Eis porque a saudade é dor crescente
Eu penso em ver o sol - que resplandece,
E a minha madrinha – evidentemente.

E benditos sejam os doces momentos em que ela, nos desígnios divinos, procurava pentear-me os cabelos em total desalinho; de ajeitava-me o colarinho da velha camisa xadrez, com o carinho e os cuidados de uma zelosa mãe. Ela prendia-me a ponta do cinto no último passador que ainda restava de uma surrada calça de brim. Ela era a minha fada-madrinha, aquela que sempre estava comigo nos meus momentos de birra, ou no implicado instante de calundu por querer um pedaço de doce de marmelo.

Foi sempre grande e sempre constante a atenção que a minha fada-madrinha dedicava a mim. Desse trato cotidiano é que, na voz dos sinos, surgiram os cânticos da fé na minha razão de ser. São por essas razões, inspiradas no seu carinho e atestadas nas figurações cintilantes do amor, que o apego de minha fada-madrinha orientou-me para uma vida digna e honrosa. Em cada um de nós há sempre uma reserva de alegria e aceitação. Entretanto, nunca me senti tão triste, quando a voz dos sinos anunciava que a morte haveria de levá-la para sempre. Esgotou-se de vez a minha alegria, ficando somente a impaciente aceitação. 

Meu pai! Minha mãe! Que onda de tristeza invade-me a alma por não a ver aqui entre nós, nesta hora mais feliz de minha vida, em que mergulho no espírito natalino para saudar o nascimento do menino Jesus. É exatamente quando, o perfume do mais puro amor trescala em minha alma, eleva-me a ela de eternas lembranças. São essas lembranças que me alentam e me confortam de sua ausência. Não, não há tesouro maior que valha o sorriso enigmático r belo do seu rosto de menina-moça.

Embasado nas palavras do poeta Cláudio Manuel da Costa e prostrado aos pés de meu Deus reflito com atenção os mistérios da vida eterna. Profundamente consternado disse o poeta: “Se alguém disser, que a engrandeço tanto/ Veja, para desculpas dos que choram/ Veja a Eulina; e então suspendam o pranto...”.

Outra vez mais a voz dos sinos vibra em ondas ligeiras.

Sabíamos que a minha fada-madrinha era uma mulher simples enquanto aqui entre nós, mas de virtudes muitas, de coração puro e de bondade incomum. Com a sua presença ao lado dos anjos celestiais, ela tornou-se uma estrela a mais neste grande universo que é de amor infinito. Temos em mente a sensação de que o Pai celeste vai ter, por certo, a melhor acolhida para si. Assim como aconteceu com Irene de Manuel Bandeira, Eulina não precisou pedir licença para entrar no reino dos céus.